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Um esclarecimento mais do que necessário (por Miguel Pachá)
Um esclarecimento mais do que necessário (por Miguel Pachá)

Data: 02/07/2018

Muito se fala sobre a nossa saída e, talvez em razão de deturpações propositais, o assunto não tenha ficado claro. Inicialmente optei por manter-me calado. No entanto, é essencial que alguns pontos sejam esclarecidos.

Em 17 meses de gestão, Abad se manteve silente sobre as crises, optando por minimizar a importância dos fatos e deixando o tempo agir, sem se expor diretamente. Se por um lado, buscou se preservar, por outro, permitiu especulações e desprotegeu a Instituição.

Somos, hoje, um clube com as vísceras expostas, nocauteados em pé, sem credibilidade e com a imagem devastada.

Depois de, por tanto tempo, ter refutado nossos conselhos para que falasse publicamente, com franqueza, optou por entrevista no Globo Esporte, na qual tenta imprimir um tom de normalidade à grave crise que nos abate, atribuindo as turbulências a questões políticas, o que não é verdade.

Não, não há, nem pode haver normalidade, depois da saída de 5VPs, do CEO, do Diretor de Futebol e do técnico. Muito menos pode-se reduzir os danos e limitá-los a questões exclusivamente políticas.

É óbvio que Abad não deu causa a todos os problemas. Sabemos o quanto a presidência tem lhe custado, inclusive pessoalmente. Apesar de considerá-lo um homem sério, é impossível fechar os olhos para sua contribuição no agravamento da crise. Não me refiro à sua atuação na gestão passada ou omissão de informações quando da união das chapas, mas, sobretudo, às suas decisões unilaterais, que inviabilizaram a nossa permanência.

Continuamos, realmente, ajudando em assuntos específicos, mas não é lenda, como referido, as relevantes divergências que apontamos.

 

DECISÕES APENAS COMUNICADAS AO CONSELHO DIRETOR

Reclama do aspecto político, mas esquece de informar que foi ele quem estabeleceu o padrão, ao decidir sozinho pela distribuição de ingressos às torcidas organizadas, ao não se posicionar claramente sobre a situação das contas da administração anterior, e por recusar todos os projetos de comunicação, optando por manter o departamento sob seu controle, apesar da inoperância e dos constantes problemas.

Entende que compartilhava a gestão, mas, infelizmente, camuflado por temperamento singular, o totalitarismo de decisões estratégicas foi sua marca. No futebol, confundiu a necessidade de blindagem do departamento com propriedade exclusiva, sua e de seu grupo político, onde ninguém mais era bem-vindo. Nos demais assuntos, deu andamento somente ao que lhe interessava.

O Conselho Diretor passou a ser usado como para-raios das decisões equivocadas, que eram apenas comunicadas. Tivessem as Atas sido lavradas, como se exige, nossos posicionamentos poderiam ser conhecidos. Entretanto, apesar das insistentes cobranças, nenhuma reunião do Conselho Diretor teve a Ata aprovada, o que é grave e inadmissível.

Não passaram pelo Conselho Diretor a escolha dos nomes do CEO, Marcos Vinicius Freire, do Diretor de Futebol, Paulo Autuori. Tampouco, a venda dos jogadores Richarlison e Wendel, ou compras, como as de Robinho, Romarinho e De Amores, inoportunas, que desequilibraram o ambiente e consumiram valores relevantes.

Tudo era mantido em sigilo absoluto e comunicado somente depois de já sacramentado, sendo que alguns assuntos nos chegavam pela imprensa. Sem falar nas ocasiões em que optou por soluções diversas do aconselhado, como no caso Scarpa e na dispensa dos jogadores.

Como ele mesmo disse na entrevista: “autonomia é uma coisa e decisão final é outra. Quem é xingado na arquibancada sou eu, então tenho que tomar a decisão minimamente com a minha consciência”. Uma visão simplista de quem, confundindo autonomia com monopólio, foi incapaz de entender e utilizar a qualidade do Conselho Diretor que conseguiu formar em torno de si, em prol do Fluminense e, sobretudo, contrária ao acordo que permitiu sua eleição. Se nos ouvisse, seguramente a situação seria diferente.

 

REFORMA ESTATUTÁRIA E PROJETO DA ERNST &YOUNG ABANDONADOS

De nossa parte, mantivemos nossa postura pelas mudanças estruturais e controle de gastos, demonstrando nossas divergências, às claras, dentro do Conselho Diretor. Abad foi por nós duramente cobrado, mas sempre teve nosso apoio e solidariedade, inclusive depois de decisões desastrosas. Esse apoio se manteve, enquanto ainda acreditávamos na intenção de implementar as mudanças, o que, infelizmente, se perdeu.

O presidente não pode dizer, sequer, que foi pego de surpresa, pois foi alertado, diversas vezes, inclusive por escrito. Em todas as oportunidades se comprometeu a rever sua postura, o que não ocorreu. Mantido o desrespeito, decidimos sair, afinal, não é aceitável que, respondendo, inclusive pessoalmente, fiquemos a reboque de decisões que não concordamos e das quais não participamos.

Nossa saída foi, portanto, resultado das escolhas do presidente, e também:

• porque, apesar da grave realidade, insistiu em contratos com grande potencial de nos gerar problemas futuros, desconsiderando nossas observações contrárias;

• porque encaminhou despesas, sem indicar a fonte de custeio, como no Projeto Samorin, aprovado sem que fossem revelados os nomes dos supostos patrocinadores que arcariam apenas com a metade do valor, e sem que se soubesse como o restante seria honrado;

• pelo abandono, desde agosto de 2017, da reforma estatutária, que legitimaria as mudanças sugeridas pela Ernst & Young para a profissionalização, com enfrentamento dos gastos e limitação dos “golpes de caneta”;

• pela substituição do CEO, que trabalhava pela melhoria dos processos internos, sem discussão, por escolha política.

Lamento que, devido ao desgaste decorrente das crises e da situação calamitosa das contas, o ímpeto de mudança tenha diminuído. Para quem foi eleito com o compromisso de profissionalização, extinguir, justamente, a VP de Governança, dispensa maiores comentários. Não contratar novo CEO, reintegrando e ampliando o poder decisório de uma escolha, pessoal e política, revela a todos o modelo que pretende adotar para o resto do seu tempo como presidente. O interesse deixou de ser a reestruturação do Fluminense e passou a ser a sobrevivência política.

 

NENHUMA ATUAÇÃO POLÍTICA NO JURÍDICO

Sobre os supostos critérios apolíticos que diz agora querer adotar para as novas nomeações, isso a mim, não se aplica, de nenhuma forma. E, que não se confunda o interesse pela visibilidade dos cargos vagos, com apoio, supostamente apolítico. São coisas bem diferentes e sabemos todos, exatamente, qual o papel de cada um nesse tabuleiro.

Como VP de interesses legais jamais atuei politicamente. Atendi a todas as demandas que me chegaram, sem exceção, até mesmo as mais ingratas, derivadas de atos contrários às minhas expressas orientações, atuando para corrigir erros que não dei causa, sem que, em nenhum momento, tenha exposto quem deveria tê-los assumido.

Sabia-se que o jurídico precisava de reformulação e, ao aceitar o convite, alertei que não seria um VP omisso. Acredito na sua importante função institucional, que se perdeu quando se transformou em mero cumpridor de ordens. Me propus a reformular o departamento, e assim o fiz, mapeando a estrutura existente, exigindo dos profissionais empenho e qualidade nas peças produzidas em nome do Fluminense.

Minha intenção sempre foi o seu fortalecimento e maior segurança, com a unificação das demandas do futebol e implementação de medidas de transparência.

Tive no início, a sinalização de que teria a necessária autonomia, porém, já em fevereiro, vieram os primeiros embates, com contratos efetivados por solicitação direta, o que não é admissível. Muitos contratos, que hoje nos sufocam, foram assinados sem possibilidade de discussão das bases, e sem consulta prévia, sequer, ao departamento financeiro.

O jurídico de um clube como o Fluminense não pode aceitar que sua atuação se restrinja à materialização de bases contratuais, estabelecidas de forma subjetiva, por decisão de dois ou três, ou por entendimentos diretos com empresários, que buscam seus próprios interesses.

Se afrontar essa determinação é ser político, sim, fui político. Meu compromisso sempre foi com o Fluminense.

 

MEDIDAS PELA TRANSPARÊNCIA

Incapaz de obter mais informações acerca de obrigações assumidas, idealizei e deixei pronta para implementação, sob a responsabilidade da Diretora jurídica, num primeiro momento para todas as movimentações do futebol profissional de 2018, ferramenta de proteção e transparência, o DIM - DOCUMENTO INTERNO DE MEMÓRIA, relatório detalhado acerca dos aspectos subjetivos das negociações.

Caso seja implementada, o que depende somente de vontade política, ficarão registradas as digitais de todos os participantes. A origem, justificativas, quem indicou ou pediu, quem é o empresário, quanto ganha, quantos atletas tem no Fluminense, se é credor ou se já nos cobrou judicialmente. As valências técnicas do atleta, informações do scout, atestados médicos e critérios de fixação do preço final. Enfim, um documento a ser assinado por todos os envolvidos, especificando seu limite de atuação nas compras, vendas e empréstimos, garantindo-se que, em todas as etapas, foram preservados os interesses do Fluminense. O formulário anterior, que dizem existir, para, aí sim, politicamente, minar a iniciativa, foi feito em meia dúzia de contratos, constando apenas o nome do atleta, o salário e a forma de pagamento.

Propus também, com o apoio do Paulo Autuori e do Marcos Vinicius Freire, a implantação de um DEPARTAMENTO DE NEGOCIAÇÕES, com time de profissionais, capazes de preservar nossos melhores interesses, que afastaria o nefasto contato direto de agentes com o departamento de futebol. Infelizmente, não avançou.

Sobre XERÉM, um reino pouco transparente, independente, com percentuais, bases contratuais e movimentações de atletas estabelecidas segundo os seus próprios critérios, questionei a forma de encaminhamento e a quantidade de contratos. O assunto sempre causou desconforto, jamais foi tratado como prioritário e todas as reuniões agendadas pelo então CEO foram canceladas.

Em problemas emergenciais, que nos atropelaram diariamente, acredito ter contribuído na busca por soluções que nos atendessem. O encaminhamento do caso Scarpa, que está longe de acabar, a recusa da venda do Wendel via clube da segunda divisão do Uruguai, o caso Diego Souza, quando nos vimos obrigados a reparar mais um erro crasso, a operação de guerra para internar os valores recebidos do Sporting de modo a honrar a tempo o trato feito com o elenco, depois de ter conseguido a redução do valor da penhora que nos onera, de 30 para 15%, no Superior Tribunal de Justiça, além de tantas outras frentes, me fazendo disponível e pautado sempre pelo trabalho incessante pelos interesses do Fluminense.

Agradeço a todos que me ofereceram ajuda e dividiram comigo as angústias. Fiz o melhor que pude e gostaria de ter feito muito mais. Saio tranquilo por ter me apresentado com firmeza diante de todos os julgadores, testemunhando nossa boa intenção e história, e por ter conseguido, em atuação conjunta com os advogados terceirizados, agregar às nossas defesas a compreensão da importância de buscarmos, até o limite, cada vitória. O Fluminense é enorme, e somos nós, que ocupamos por algum tempo as cadeiras do Conselho Diretor, que assim o revelaremos, com nossos atos e posturas.

Sempre serei grato pela possibilidade de ter podido defender o Fluminense. Foi uma das maiores honras que tive na vida. Mantive com todos, relação de absoluto respeito e, sem qualquer aspiração política, continuarei me colocando disponível para ajudar, sempre que possível.

 Saudações Tricolores.

Miguel Pachá Junior

Com muito orgulho, Ex-Vice-Presidente de Interesses Legais do Fluminense Football Club

 

 

 

 

 

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LUIZ AUGUSTO LEMOS - 04/07/2018 às 09h18
Parabenizo o nosso ex Vice-Presidente por nos mostrar o triste panorama que o Presidente Abad e seus seguidores traçaram para esconder os erros da facção inexperiente , mas no entanto mal intencionada Flu Sócio.
A proposta de nosso ex- VP, "implantação da
DIN", deve ter tirado o SONO dos envolvidos nas tramoias que destroem as finanças dos clubes. Especificamente o conluio de empresários, MAL MAIOR DO FUTEBOL, com diretores que assumem o cargo na gestão do futebol para enriquecerem em 3 anos (mestrado) e completarem o doutorado em mais 3 anos.
Precisamos dialogar. Nosso Fluminense está exposto na TV com fatos divulgados que se referem à invasão do outrora inexpugnável tradicional Clube pioneiro das melhores páginas escritas no desporto brasileiro.
A torcida está temerosa do que irá sofrer até o final deste campeonato brasileiro.
Temos de reagir e a reação tem de ser encabeçada justamente pelos NOMES de expressão do Clube. Reunamo-nos para encontrar soluções. O FLUMINENSE SOMOS TODOS NÓS, CONVÉM RELEMBRAR neste momento histórico........
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