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    Leandro Capela
    Leandro Capela é graduado em Engenharia de Produção pela UFRJ e fascinado por interpretar números. Filho de Oxóssi e apaixonado pelo Fluminense, pela Portela, pela Carolina e por seus cinco cachorros, não necessariamente nessa ordem
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em foco • Por Leandro Capela • 16 fev 2017
Quatro toques sobre o Flu Europa (Por Leandro Capela - "Resenha em 3 cores")

Ontem (15), a Bloomberg, uma das maiores referências em finanças no planeta, publicou uma matéria bastante interessante sobre a atuação do Fluminense na Eslováquia. Nela, são apontados alguns dados importantes a respeito do projeto. Primeiramente, devemos assumir uma premissa fundamental. Não é novidade que vendas de jogadores possuem um peso enorme nas finanças de todos os grandes clubes brasileiros. Basicamente, todos dependem dessas transações para fechar as contas todos os anos. Dessa forma, devemos ter em mente que o Fluminense também depende disso.

Numa visão utópica, que é também o meu desejo, os melhores jogadores de Xerém deveriam apenas servir ao clube, como faz, por exemplo, o Barcelona. Os catalães possuem, há anos, um elenco recheado de atletas oriundos das categorias de base, fazem contratações pontuais para posições-chave e seguram talentos. Sinceramente, espero que a diretoria do Fluminense trabalhe para que o clube chegue ao patamar de não ter essa dependência, mas, enquanto não chegar, a nossa realidade continuará sendo a mesma dos demais.

Vale dizer que torço o nariz para a filosofia baseada em venda de atletas, não nego. Foi sempre minha maior crítica ao projeto desde sua concepção, pois foi a leitura que fiz quando me foi apresentado. Que as transferências sejam vistas como um meio não convencional para obter grandes receitas no curto prazo, e não um fim. Por outro lado, ao menos no discurso, Marcelo Teixeira está alinhado com o que penso ao dizer que vender não é prioridade. Que se cumpra.

Nesse sentido, partindo da premissa inicial, organizei alguns fatores explicitados no artigo da gigante americana: (1) imunidade, por poder se tornar um meio de eliminar desfalques no elenco profissional por motivo de venda; (2) confiabilidade, por se tratar de um “tiro certo” do mercado; (3) adaptabilidade, por ajudar na ambientação dos atletas que buscam espaço no Velho Continente; (4) localização versus custo, aliando proximidade de grandes centros por um valor acessível.

 

1) Imunidade - Conforme o projeto caminhar e der certo, o ŠTK Šamorín pode se tornar uma fonte permanente de receitas. Caso os montantes se tornem suficientemente altos para salvar nossas contas, não precisaremos nos desfazer de nenhum jogador do elenco profissional. Ou, numa hipótese menos otimista, poderíamos nos dar o luxo de negociar um jogador menos talentoso e segurar os mais badalados. Sendo assim, conseguiríamos, de certa forma, nos livrar de uma dor de cabeça que todos os clubes brasileiros têm, uma vez que precisam frequentemente reconstruir seu elenco e seguir na ciranda do mercado do futebol. Ficaremos imunes a essa necessidade de vender um jogador importante do elenco profissional a cada janela. De outra parte, não há dúvida ao dizer que aqueles que se destacarem na filial setentrional podem e devem ser aproveitados na matriz, como é o caso do volante Luiz Fernando neste ano. Abre-se um novo leque de possibilidades ao clube.

2) Confiabilidade - Espera-se que o investimento em aquisição de jogadores nos maiores clubes seja fruto de profunda análise técnica, física, psicológica e financeira. Todavia, mesmo observando muitos dados, toda contratação tem um quê de aposta. Quando se trata de jogadores jovens, a chance de erro é ainda maior. Agora, coloque-se no lugar do responsável pelas contratações. Você tenderia a investir em um atleta que saiu da mesma fábrica que Marcelo, Thiago Silva, Fabinho e até mesmo Carlos Alberto (campeão mundial pelo Porto) ou daria um tiro no escuro em um clube sem tradição em revelar craques? A marca do Fluminense é forte e possui credibilidade.

3) Adaptabilidade - Quando um atleta é transferido para o exterior, pode encontrar barreiras como clima, idioma, alimentação e até a solidão. Na matéria da Bloomberg, é mencionado o caso de Alan Fialho, que pensou até em pendurar as chuteiras após período difícil na Polônia. O zagueiro se sentia sozinho, o que o prejudicava psicologicamente. Após convite de Teixeira, Fialho foi integrado ao elenco do Flu Šamorín. Diferente do que passava no país vizinho, Alan agora tem a companhia de outros colegas brasileiros. Com um diferencial: por ter passado muito tempo na Polônia, é fluente no inglês e ajuda os colegas ao traduzir as instruções do treinador finlandês. Com o passar do tempo, os obstáculos vão sendo driblados em grupo e passam a ser tirados de letra. Toda essa dificuldade que se sentiria na transição Brasil-Europa já fica para trás e aqueles que passam por Šamorín largam na frente. Possuem o talento latino-americano, mas já ambientados ao centro econômico mais poderoso do futebol mundial.

 4) Localização versus custo - Dentro da Europa, certamente há vários centros mais interessantes que a Eslováquia, com mais visibilidade e onde se joga um futebol mais competitivo, com um idioma mais próximo do português e com clima mais ameno. No entanto, o custo seria muito maior. Por exemplo, segundo Marcelo Teixeira, realizar um projeto similar em Portugal, onde não haveria a barreira da língua, custaria dez vezes mais que na Eslováquia (750 mil euros). Além disso, a escolha por Šamorín é interessante, por sua localização na fronteira com a Áustria e muito próxima de Hungria e República Tcheca. Vale perceber que a cidade também fica a cerca de 500 km de Munique, cidade-sede do clube que formou a base de última seleção campeã mundial. Para efeitos de comparação, da sede do ŠTK Šamorín ao Allianz Arena se viaja a mesma distância do CT do Fluminense à Vila Belmiro. Indo a Milão, o trajeto não será tão longo quanto o trecho Rio-Brasília. Até Paris, anda-se uma distância menor que do Rio a Porto Alegre. Para chegar a Madrid, a viagem será mais curta que uma do Rio a Fortaleza. Tudo isso por um valor perfeitamente praticável.

Com isso, encerro a análise de fatores-chave para o sucesso do projeto Flu Europa. Vale explicitar que alguns dos pontos levantados dependem de uma série de fatores, especialmente os dois primeiros. Eles simulam situações dentro de um cenário favorável. Não que seja impossível. Pelo contrário, até acredito que seja praticável, mas não será para já, tampouco simples de se conseguir. Talvez nem precise dizer, mas deixar claro nunca é demais: que o projeto não sirva, sob hipótese alguma, para ser campo livre de determinadas transações distantes dos olhos da torcida. Tenho fé e confiança que não será. No mais, sigamos em frente. Que esta e as próximas temporadas sejam vitoriosas para o Fluminense, seja na América, na Europa ou onde quer que o escudo tricolor dispute uma competição.

 

 

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Flavio Chammas - 16/02/2017 às 15h48
Posso discordar em relação ao Barcelona?Ou que vc me informe o elenco recheado de atletas da base? Criou-se um mito sobre o Barcelona, e eu não vejo tantos da base sendo aproveitados. No time atual quem(novo ok, sem falar de Iniesta Piquet)?. No Flu assino junto
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