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Artigos • Por Fagner Torres - Blog Laranjeiras • 08 fev 2018
"Estão jogando nossa autoestima e tradição no lixo", acusa ex-conselheiro do Flu (por Fagner Torres - Blog Laranjeiras)

O clube pioneiro no futebol do Rio de Janeiro, cujo estádio, prestes completar 99 anos, foi berço da seleção mais vitoriosa de todos os tempos, atualmente é apenas um retrato na parede.

Mas o Fluminense tem vocação para a eternidade. Como a Fênix, é capaz de ressurgir do inferno. Se hoje o Tricolor perde protagonismo dia após dia, se apresenta desbotado em campo e cada vez mais afastado de seus torcedores, o amanhã pode ser diferente.

Para isso é preciso muita fé. Pelo menos é o que acha o atual secretário de Estado de Educação do Rio de Janeiro, Wagner Victer. Tricolor "alucinado", do tipo que fala sobre o clube em todos os seus discursos, Victer, como é mais conhecido, que recentemente deixou de ser conselheiro do Fluminense, recebeu o BLOG LARANJEIRAS para uma entrevista franca e direta.

Ele crê na honestidade do atual mandatário, Pedro Abad, mas cobra governança, transparência e resultados de time grande. Para ele, Laranjeiras precisa voltar a ser morada de novos troféus e não "caso de polícia". Confira:

BLOG LARANJEIRAS - Na minha avaliação, a gestão Pedro Abad encaminha o Fluminense para um apequenamento difícil de reverter se os rumos não forem mudados agora. O senhor, além de tricolor fanático e ex-conselheiro, é um apoiador do presidente. Consegue ver algum ponto positivo nesta gestão?

Wagner Victer - Deixei de ser conselheiro ao final da segunda gestão do Peter, pois optei por não concorrer mais. Destaco que apoiei o Abad na sua eleição. Tinha uma expectativa positiva, pois esperava que ele, como auditor fiscal, proporcionasse mais transparência e, consequentemente, melhor governança nos rumos do Fluminense.

Acho o Abad uma pessoa honesta, até bem intencionada. Trouxe para os seus quadros um CEO experiente, que é o Marcus Vinicius Freire (nota do BLOG LARANJEIRAS: Freire é ex-diretor executivo de Esportes do Comitê Olímpico Brasileiro e um dos homens fortes do Comitê Organizador Rio 2016). Porém, a atual gestão comete os mesmos erros do passado, e tem demonstrado um amadorismo primário, que pode levar nosso clube para um caminho sem volta em direção à Segunda Divisão.

BL - Enxergo futebol como um círculo virtuoso: Time competitivo-Maior possibilidade de resultados-Engajamento de torcida-Aumento de Receitas-Time competitivo e assim sucessivamente. Nosso Tricolor está escolhendo o rumo inverso. Ficou anos sem patrocínio máster, vivendo de permutas. Luta para não cair no Brasileirão e chega ao ápice do enfraquecimento. Na estreia da Taça Guanabara, torneio no qual sequer nos classificamos à semifinal, o Abel não tinha nem goleiro reserva para escalar. Olhando os 11 titulares contra os times pequenos, fica difícil saber quem é o Fluminense. O que faria de imediato para reforçar o elenco?

WV - O Fluminense se afastou dos grandes momentos que tivemos na gestão do Francisco Horta, de Manoel Schwartz e até o período da Unimed. Tivemos erros fantásticos nos últimos anos, desqualificando jogadores, como foi o caso do Emerson, demitido meses após fazer o gol do título do Tricampeonato Brasileiro; do ídolo Fred; a demissão atabalhoada do Marcão, e agora, mais recentemente, a deselegância no caso do Cavalieri e também com o último capitão, que era o Henrique.

Ou seja, deixamos de ser cobiçados por craques e também por jovens de valor, pela forma como tratamos nossos jogadores e pelos atrasos salariais. Acho que temos que tentar trazer alguns jogadores do mercado sul-americano, que normalmente são mais baratos. Eu tentaria trazer um camisa 10 cascudo do exterior e promover imediatamente alguns jogadores da base que mostraram potencial, como o Pedrinho, padrão “camisa 10”; e o Ramon. No Brasil, o que tem disponível hoje ou é muito caro ou não agrega.

BL - O senhor citou a história das dispensas ocorridas pelo Whatsapp. Como viu essas saídas? Há cabimento em dispensar alguns daqueles jogadores, diante das opções que temos?

WV - Isto foi mais um case de amadorismo. Gostaria de saber quem foi o gênio que tomou a atabalhoada decisão de divulgar publicamente uma barca de alguns jogadores com espaço no time, sem o devido equacionamento jurídico de desligamento.

Queimamos um ídolo e torramos um jogador pelo qual pagamos um valor elevado (Henrique), cobiçado pelo Corinthians. Provavelmente, ainda teremos que pagar todos os salários deles até o final do contrato. Isto não é só erro e amadorismo, é dilapidação de patrimônio.

Posso até concordar com uma saída negociada para redução da folha de pagamento. No entanto, esse "filho feio" não tem dono. Ou melhor, nem o presidente apareceu para assumir.

BL - E o caso Gustavo Scarpa? Crê que o jogador é culpado como a diretoria quis convencer a torcida ou vê incompetência do Departamento Jurídico do clube?

WV - O caso Gustavo Scarpa, se fosse numa empresa pública, daria uma ação de improbidade pelo Ministério Público contra o gestor. Em uma empresa privada de capital aberto, daria uma ação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou por acionistas minoritários. Isto também transcende o amadorismo, indo à irresponsabilidade.

É óbvio que, para jogadores cobiçados, o clube teria que gerenciar os recursos disponíveis, mantendo-os presos dentro do limite do atraso permitido pela legislação. Que atrasasse os salários daqueles que não pediriam desligamento, como Maranhão, Marquinho, Pierre e outros emprestados com vencimentos pagos pelo Fluminense.

Ou seja, perdemos um jogador que, no mínimo, valeria de R$ 50 a R$ 60 milhões aos nossos cofres, e ainda corremos o risco de sermos obrigados a pagar todo o salário ou parte dele até o fim do contrato. Esse erro pode representar uma deterioração financeira do Fluminense na ordem de R$ 100 milhões.

Os responsáveis por esta trapalhada têm que ser apontados e devidamente afastados da direção e responsabilizados no que manda o Estatuto. Se forem funcionários, têm que ser demitidos sumariamente.

BL - Como o senhor se sente ao saber, pelo noticiário, que o Fluminense é hoje um clube rejeitado até por jogadores bizarros do futebol brasileiro?

WV - Isso é uma vergonha para as nossas tradições. A entrevista do Henrique Dourado que, até 2016 era um jogador medíocre, ao final do jogo na Flórida, renegando o Fluminense, a torcida que o transformou em algo que ele nunca foi, foi lamentável. Uma mácula! Para piorar, ainda foi parar no Flamengo. O Reginaldo pedir para sair para o América Mineiro é humilhante! Temos um valor imaterial, que é nossa autoestima e tradição, e elas estão sendo jogadas no lixo.

BL - Você acha que o presidente Pedro Abad é refém do grupo político que o elegeu, a Flusócio?

WV - Não tenho certeza disso, mas ele, como todo e qualquer gestor de futebol, não pode se afastar do seu público-alvo, que é a torcida e os sócios. Deve ser grato a grupos políticos e apoiadores, porém não subserviente. Nada tenho contra a Flusócio e outros movimentos, mas em nenhum momento o Fluminense pode se subordinar a qualquer grupo ou corrente política.

Parece-me que a postura de qualquer gestor é se comprometer com sua atividade-fim. Repito: acho o Abad uma pessoa séria e honrada, porém o Fluminense está com muita gente mandando, uma confusão tremenda, possivelmente com salários elevadíssimos e, na hora que acontece um problema, todos somem. Ou seja, é o dito popular: “cachorro com muito dono morre de fome”.

É vergonhoso que não tenha ninguém botando a cara, dizendo e reconhecendo que errou e até apresentando soluções. Todos somem! A entrevista do Cavalieri deveria envergonhar toda a direção do Fluminense, até porque ele é uma pessoa bastante comedida e um atleta tetracampeão brasileiro pelo clube.

BL - Aliás, ainda sobre a Flusócio: atualmente os vejo como um rascunho de tudo aquilo que eles diziam combater. Considera esse grupo capaz de gerir um clube do tamanho do Fluminense?

WV - Nenhum grupo deve avocar a si a responsabilidade de gerir um clube do tamanho do Fluminense, que mexe com paixões, sem ter experiência e capacidade de gestão. É uma instituição que tem que dar resultados financeiros, em títulos e imateriais, como o aumento de torcedores e orgulho.

Vejo muita gente amadora no futebol, totalmente inexpressivas, recebendo salários nababescos. Vejam o caso do Alexandre Torres: foi um bom jogador, filho de um símbolo do nosso clube, porém, com passagem inexpressiva e com salários superiores ao de muitos executivos de multinacionais.

Não dá para ser amador em futebol quando se disputam contratos com outros clubes no mercado em que vivemos. Clube de futebol não é local para se estagiar, para aprender a ser gestor. Acho, porém, que todos os grupos devem colaborar, apoiar e evitar politicagens, apontando caminhos, desde que esses sejam adotados. Administrar um clube pensando só em processos eleitorais é a sua derrocada.

BL - O projeto Samorin, assim como todos os outros envolvendo o futebol do clube, não tem nenhuma transparência. Seu "pai", Marcelo Teixeira, é um profissional que só aparece em momentos positivos e vive nas sombras durante as crises. Crê que manter um clube na segundona da Eslováquia traz algum retorno efetivo ao Fluminense?

WV - O projeto Samorim é mais uma caixa preta! Quanto custa? Somos donos do clube? Somos donos das instalações? Podemos sair a qualquer momento? Qual a duração do contrato? Sempre perguntei isso e o próprio papel do Marcelo Teixeira não fica claro no clube. Se é da Divisão de Base, deveria ter colocado a cara no mesmo dia, explicando a nossa vexatória participação na Copinha.

Temos em Xerém, e nas divisões de base, ainda, o nosso grande ativo. Porém, a próxima geração que teremos, que começa a subir, é muito fraca. Não se sabe o que o Marcelo Teixeira faz e o seu papel em relação ao Abel, Autuori e outros gestores do futebol, nem o seu salário. Tem que ter o custo benefício e hoje me parece baixíssimo.

Esse caso recente do Diego Souza, onde observamos uma negociação entre São Paulo e Sport Recife por R$ 10 milhões, e depois se descobriu que alguém abriu mão dos R$ 5 milhões que eram devidos ao Fluminense. Isso é caso de polícia!

E ainda viramos chacota do próprio Sport Recife, dizendo que o Fluminense observou a negociação e nada fez!

BL - Soube que, em breve, haverá uma reunião de tricolores "formadores de opinião" para discutir o futuro. O senhor é um dos entusiastas desse encontro. Qual é a ideia: se aproximar da gestão e apontar caminhos ou oxigenar o Fluminense com novas pessoas? Esse movimento é de curto prazo ou já é pensando eleitoralmente? Quem já confirmou presença?

WV - Não se pode chamar de movimento, nem qualquer processo de oxigenação de gestão ou antecipação para sucessão eleitoral. Temos um grupo de tricolores formadores de opinião que, via e-mail, trocam impressões e colocam opiniões e paixões. Em uma ação positiva, o Fluminense chamou para esclarecer dúvidas que nunca foram esclarecidas, muitas dessas questões que estão nesta entrevista.

O que mais me impressiona no Fluminense é a eterna figura do “sujeito oculto”, ou seja, alguém foi culpado, não aparece quem é, fica numa nuvem entre gestões e não se pune esse gestor. O clube tem que saber ouvir seus torcedores e sócios, e os que colaboram têm que estar preocupados em apontar caminhos e não gerar mais turbulência.

Sou contra qualquer processo de impeachment, pois o atual presidente foi legitimamente eleito, e afastamentos só podem ser realizados pelas razões previstas no Estatuto, ou por opção de renúncia. Porém, a atual administração não pode adotar a postura de avestruz e cometer erros sucessivos sem reagir de forma profissional. O primeiro passo é dar transparência total, o que não existe, e reconhecer os erros publicados e punir os culpados, pois o cenário atual é de forte indicativo de queda. Nas duas últimas vezes em que estivemos para cair, promovi missas pedindo milagres e eles aconteceram. Não quero ter que fazer missa de novo.

BL - Por fim, um ping-pong. Gostaria que o senhor resumisse, em apenas uma frase, alguns atores políticos do Fluminense:

Francisco Horta: O maior tricolor vivo. Merece uma estátua em vida.

Celso Barros: Conseguiu retomar nossa autoestima por mais de uma década.

Pedro Antônio: Um tricolor novo, porém dedicado. Tem seu valor.

Mário Bittencourt: Faltou muita transparência nas suas ações no futebol.

Ricardo Tenório: Um tricolor apaixonado, competente, dedicado e experiente.

Alcides Antunes: Conhece sobre relação com atletas e foi decisivo na conquista do Brasileirão de 2010.

Julio Bueno: Um dos tricolores mais apaixonados que conheci. Votei nele quando se candidatou.

Antônio González: Um torcedor apaixonado.

Cacá Cardoso: Um advogado respeitável e tricolor presente. Se comporta adequadamente como vice. É uma opção para o futuro do clube.

Peter Siemsen: Uma pessoa séria, dedicada. Errou emblematicamente nos casos do Emerson, Fred, e na relação Unimed e nos inexplicáveis aditivos com o Maracanã.

 

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Rogerio Lima - 08/02/2018 às 16h47
O W.V. devia estar preocupado com a Educação no Rio de Janeiro que ele está ajudando a enterrar.
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